quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Consagração

Se no livro de Gênesis, o povo ainda estava com o seu pai Abraão; no livro de Êxodo estavam junto aos fornos do Egito; em Levítico, ao redor do Tabernáculo; em Números são vistos no deserto. Homens de guerra, exércitos, acampamentos, toques de trombetas e sons de alarme.
No capítulo 01 temos a genealogia (os homens de guerra são contados); no capítulo 02, o reconhecimento da bandeira (as posições no acampamento e marchas são indicadas); nos capítulos 03 e 04, os levitas são contados e os seus deveres descritos; no capítulo 05, há a remoção de impurezas do acampamento. E no capítulo 06vemos um tipo especial de separação, o voto nazireu (Números 6.1-21). Em hebraico, Nazar significa: separar, consagrar, abster-se.
Em Israel, nazireu era aquele que se separava dos outros ao consagrar-se a Iavé mediante um voto especial.
Para este homem havia: Proibições (não beber vinho, não cortar os cabelos e não tocar em mortos, e é basicamente sobre isso que vamos estudar), violação (se acontecesse a violação, o nazireu tinha de submeter-se a ritos purificatórios, e começar tudo novamente) e término (com sacrifícios, o corte do cabelo e a queima sobre o altar).
A ordenação do nazireado está cheia de interesse e instruções práticas. Vemos nela o caso de alguém que se põe à parte, de uma forma muito especial, de coisas que, embora não sejam absolutamente pecaminosas em si, são, todavia, prejudiciais à inteira consagração de coração que se manifesta no nazireado.
Começamos o nosso estudo perguntando: O propósito que fizermos, pode nos levar a um estado de consagração que agrade ao Senhor? O que fazemos com os contratempos no meio do caminho? Como vencer os obstáculos para uma vida consagrada? Podemos realmente viver e demonstrar, para a glória de Deus, uma verdadeira consagração?
Pensemos, primeiramente, nisso...
1. A consagração pode acontecer como resultado de um propósito definido.
O nazireu não podia beber vinho. Tudo o que vinha do vinho era proibido a ele. Ora, o vinho é o símbolo natural da alegria terrestre. O nazireu devia abster-se cuidadosamente no deserto. Para ele a ordenação era clara. Não devia excitar a sua natureza com bebida forte.
Tal era o símbolo, e está escrito para nossa instrução neste livro de Números que é muito rico em suas lições no deserto.
Mas qual é a lição que nos é ensinada na abstinência do nazireu de tudo o que pertencia à videira, desde os caroços até as cascas?
Neste mundo não houve senão um verdadeiro e perfeito nazireu, mantendo a mais completa separação de todo gozo meramente terrestre. Desde o momento em que entrou no seu ministério público, manteve-se à parte a parte de tudo o que era deste mundo. O seu coração estava posto em deus e na sua obra com uma dedicação que nada poderia alterar os seus propósitos. “Não sabeis que me convém tratar dos negócios do meu Pai?” Com tais palavras, o verdadeiro nazireu mostrava que tinha uma obra para fazer e para isso separava-se perfeitamente. Os seus olhos vislumbravam o alvo e o seu coração não estava dividido. Isto é evidente desde o principio ao fim de sua vida na terra. Podia dizer aos seus discípulos: “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis”. E quando eles não compreendiam o sentido profundo de suas palavras, perguntando, “Trouxe-lhe, porventura, alguém de comer?“. Ele respondeu: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e fazer a sua obra”. Assim o perfeito nazireu se comportou. Desprendia-se de tudo o que era mero afeto humano, de forma a dedicar-se ao único e grande objetivo, que sempre esteve presente na sua mente.
Meus irmãos, ponderem seriamente sobre este grande aspecto do caráter no nazireu. É uma questão muito séria, saber até que ponto nós cristãos compreendemos o significado e o poder dessa extrema separação de toda a excitação da natureza e da alegria puramente terrena. Pode-se dizer: Que mal há...? E enquanto estamos no mundo, não é justo nos divertirmos nele? A isto respondemos que não é uma questão do mal que há nisto ou naquilo. Não havia nada de mal na videira. O ponto é que se alguém aspirava ser nazireu, se ambicionava esta santa separação para o senhor, tinha de abster-se do vinho e de toda a bebida forte. Os outros podiam beber, mas ele não.
A questão para nós é esta: queremos ser nazireus? É sobre esta pergunta que gira toda a questão. As alegrias terrenas podem ou não dificultar a nossa inteira consagração de alma, que é o segredo do nazireu espiritual?
Que Deus nos dê graça para ponderarmos sobre estas coisas e vigiarmos contra toda a influência negativa. Cada um sabe o que pode ser comparado ao vinho e bebida forte. Pode parecer insignificância, mas nada do que tira a nossa comunhão com Deus deve ser tratado como insignificante.
Por isso, pensemos também nesse outro aspecto...
2. A consagração pode acontecer como resultado da obediência.
Não devia cortar o seu cabelo. (Vs5). Em 1 Coríntios, Paulo ensina que uma cabeleira crescida é considerada como falta de dignidade no homem dizendo que “é desonra para o varão ter cabelo crescido”. Isso nos mostra que viver uma vida de separação para Deus, é estar disposto a abandonar e renunciar a nossa dignidade na natureza. Foi isso que Jesus fez: Humilhou-se a si mesmo. Esqueceu-se de si enquanto cuidava dos outros.
Mas parece que isso nós gostamos menos de fazer. Defendemos muito, a nossa dignidade e procuramos manter os nossos direitos. Devemos abandonar as dignidades da natureza e os gozos da terra, se quisermos trilhar o caminho de inteira separação para Deus nesta terra. Ambas as coisas estarão em breve no seu lugar, mas enquanto não chega esse dia temos de renunciar.
Aqui novamente, não é o caso de saber se o pleito é justo ou não. Como regra geral, os homens cortavam o cabelo, mas para o nazireu era mau fazê-lo. A diferença estava nisto. Era normal que todos os homens fizessem, mas o nazireu era separado do restante, seguia um caminho diferente. Mas não é justo fazer o que todo mundo faz? É justo se nos propormos a andar como os homens, mas é mau se desejamos andar como nazireus.
Isso simplifica o assunto e responde a muitas perguntas, resolvendo dificuldades. A questão é esta: Qual é o nosso verdadeiro propósito? Queremos nos comportar apenas como homens comuns ou desejamos ardentemente vivermos como nazireus. Somos dirigidos pelo Espírito ou os princípios deste mundo sem Deus e sem Cristo nos direcionam? O problema está neste Pé. O que é normal para os homens deste mundo, na maioria das vezes não é aceitável aos nazireus de Deus, isso se formos governados pela simples verdade de Deus. Tomemos o caso de Sansão, relatado no livro de Juízes, que numa má hora traiu o seu segredo e perdeu todo o seu poder, embora não o soubesse. O que mil filisteus não conseguiram foi feito pela ardileza de sua mulher. Sansão saiu da elevada posição de nazireu ao nível de um homem comum e vulgar. Por que sansão foi humilhado? Porque cedeu à natureza. Foi lhe permitido, pela graça de Deus ter uma vitória no final, mas essa vitória lhe custou a vida.
Por isso, a importância de ter objetivos definidos, e de sermos obedientes ao Senhor nos nossos propósitos. Tempo virá em que será diferente; mas no tempo presente, todos os que quiserem viver para Deus e andar no Espírito, têm de viver separados do mundo e mortificar a carne. Que Deus, em sua grande misericórdia nos ajude a fazer assim.
Resta-nos considerar uma outra característica do nazireu...
3. A consagração pode acontecer como resultado da pureza.
Não devia tocar num corpo morto. (Vs6e7). Aqui a mesma implicação. A contaminação da cabeça do nazireu. Ele já não devia perguntar o que interessava como homem, mas como nazireu. O nazireado do seu Deus estava sobre a sua cabeça. É importante que falemos que não se trata da salvação da alma, da vida eterna ou da segurança perfeita do crente em Cristo. Estamos falando do elo da comunhão pessoal. O primeiro nunca poderá ser quebrado por coisa alguma; o segundo pode ser interrompido. A doutrina do nazireado pertence ao segundo destes laços.
Vemos na pessoa do nazireu um símbolo de alguém que entra numa situação especial de dedicação e consagração a Deus. O poder de seguir neste caminho consiste numa elevada comunhão com Deus. Se a comunhão é interrompida, o poder desaparece e torna o assunto apenas solene. É triste ver um nazireu cair, mas mais triste é ver um nazireu caído procurando manter aparências. Conservemos essa frase: Em todos os dias do seu nazireado, será santo ao Senhor. A santidade é a grande característica de todo nazireu; de maneira que uma vez perdida a santidade, o nazireado acabou. Então alguém poderia perguntar: Mas e se isso acontecer? E se um nazireu se contaminar? O livro mostra que havia o holocausto, figura da morte de Cristo, a expiação mediante o sangue. Mas também a advertência. O nazireu tinha de começar tudo de novo. Não só os dias referentes ao pecado, mas tudo havia sido em vão até então.
O que isto nos ensina? Que quando nos afastamos, temos de retornar ao ponto de partida e recomeçar tudo de novo. Isso talvez explique o progresso extremamente lento de alguns de nós na vida prática. Falhamos, nos afastamos do Senhor, caímos em trevas espirituais, o Senhor nos conduz de volta por seu amor, as nossas almas são restauradas, mas nós perdemos tempo e sofremos. Isso deveria nos incentivar a sermos mais vigilantes.

Para pensar...
Vemos que a lei do nazireado nos conduz a alguma coisa futura, quando aparecerá o pleno resultado da obra perfeita de Cristo; e quando ele como messias de Israel provará, no fim de sua separação de Nazireu, o verdadeiro gozo com o seu povo. Será então o tempo de o nazireu beber o vinho. Ele separou-se de tudo a fim de dar cumprimento a essa grande obra da lei precedente. Está separado, no poder no nazireado. Virá, pois o dia em que o messias se regozijará em Jerusalém, e com o seu povo.
Quanto a nós, lembremos que a consagração pode acontecer como resultado de um propósito definido em nosso coração, como resultado da nossa obediência ao Senhor, e como resultado da pureza da nossa vida.

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